Um mês. O período de “nojo” para me debruçar, com alguma clarividência – a possível –, sobre o resultado das autárquicas em Vila do Conde. Não é empreitada fácil. A envolvência confere emoção e a emoção tolda a razão. Este mês serviu para lamber as feridas da hipotermia eleitoral…

Mas o resultado foi o que foi. Para a Câmara, Vítor Costa e o seu PS aumentaram 6 mil votos. Ganharam em todas as freguesias. Mesmo naquelas em que o PSD/CDS conquistou a respectiva Junta.

Por sua vez, o epifenómeno NAU acabou. E houve, em relação aos seus resultados de 2021, uma inversão de papéis: o PSD ocupou o seu lugar, com 3 Vereadores, e o Chega conseguiu eleger 1, ocupando o lugar do PSD dos últimos 8 anos. O que significa três coisas: que o PSD recuperou o seu histórico relevo local como principal força da oposição; que o (novo) PS recuperou o restante do eleitorado que (o velho PS) perdeu para a NAU (em 2017) e ainda conquistou o grosso dos habituais indecisos; e que o PSD recuperou a maior parte do seu eleitorado, que nas duas anteriores eleições embarcou na NAU, pese embora tenha perdido uma outra ligeira (mas não despicienda) parte para o Chega, que teve cerca de 70% da sua votação proveniente das freguesias, e não de Vila do Conde e Caxinas – e não lembrará ao diabo achar que, na profundidade rural do concelho, roubaram votos à esquerda…

Contudo, e antes que se afiem as habituais facas longas, convirá destacar o seguinte: tanto o PSD/CDS, como o PS tiveram, em termos percentuais, o seu 10.º “melhor” resultado eleitoral de sempre. Ou seja, face ao contexto histórico local, nem o PS teve uma vitória “esmagadora”, nem o PSD/CDS teve uma derrota retumbante. O que merece uma reflexão – sob pena de desonestidade interessada –, tendo por comparação a disparidade de meios ao dispor das duas forças políticas. Quer durante estes quatro anos, quer, notoriamente, nestas eleições, em que ambas tiveram distintos pontos de partida.

A começar pelos longos e absorventes resquícios do “almeidismo”, que produziu toda uma máquina que ainda se mostra capaz de bulir – independentemente do maquinista e das divergências autorais. Depois, pelos 4 anos dos incumbentes a zarpar em bolina, à boleia dos ventos camarários. E que fizeram toda a diferença. Nas festas e nas fotos. Nos cheques e nos concertos. Nas Malafaias e nas Praças da Alegria. Aquilo que chega ao Vilacondense comum, pouco preocupado, senão desconhecedor do endividamento municipal, dos péssimos resultados líquidos ou da retenção da componente municipal do IRS… E ainda menos preocupado, senão totalmente desconhecedor das tricas e intrigas do burgo (e até dos seus protagonistas)…

Tudo isto culminou, uma vez mais, num combate entre David e Golias. Entre o protagonismo consolidado e a ausência dele. Entre os “apoios” e a ausência deles. A abundância de financiamento e a ausência dele. A abundância de pessoal (obediente) ao dispor e a escassez dele. Em resultado, venceu o poder… E apontar o dedo aos erros dos vencidos é apontar o dedo a David, no conforto da tribuna…

Aos “companheiros” (e não só), um post-scriptum: a campanha foi bonita; houve substância e dignidade. Se não foi suficiente, é já meio caminho andado. As sementes estão lançadas e o futuro dirá o que se avizinha. Por ora, será merecido um reconhecimento a quem, à míngua das “alturas certas”, construiu e liderou uma verdadeira alternativa. Fica para uma próxima.

(Deputado Municipal do PSD)

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