Discutir e aprovar uma lei tem custos que não devem ser desprezados. Os salários dos 230 deputados, custos de funcionamento, despesas administrativas e publicação no Diário da República são parcelas a considerar. É, por isso, imperioso que as propostas apresentadas no Parlamento espelhem reais preocupações ou legítimos anseios da população, caso contrário constituem indesculpáveis desperdícios de tempo e do erário público.
Vem isto a propósito da Lei da burca. Obviamente que abomino qualquer tipo de subjugação da mulher e defendo intransigentemente a igualdade de género. Valores que, claramente, os seus proponentes não perfilham ou não fossem parceiros do grupelho Reconquista que preconiza retirar o direito de voto às mulheres. Resume-se, por isso, a uma iniciativa enquadrada na estratégia fascista de perseguição das minorias para nos distrair da realidade do País. Senão, olhemos à nossa volta. Vemos alguma proliferação do uso de burcas que se deva conter e que obrigue a legislar sobre o assunto? A resposta é, claramente, não!
Mas enquanto olhamos para ver onde estão as burcas, afinal o que nos surge são os preços exorbitantes no acesso à habitação (insultuosamente considerados “moderados” pelo Governo) que dificultam e impedem os jovens de constituir família, salários e pensões que nos empobrecem, degradação planeada e intencional do Serviço Nacional de Saúde castigado com cortes orçamentais inversamente proporcionais aos aumentos da despesa com os privados e a declaração de guerra aos trabalhadores vertida num pacote laboral que pretende trazer de volta os tempos de má memória da troika.
É esta erosão de direitos que autores e apoiantes da lei da burca querem esconder para evitar uma justa resposta dos portugueses. Por isso, convém-lhes distrair-nos com outros assuntos, pôr-nos uns contra os outros, discutir sobre questões que não têm outra finalidade que não seja a de nos alhear daquilo que é verdadeiramente importante.
A lei da burca é um embuste porque pretende esconder a investida que está a ser levada a cabo contra os direitos dos portugueses. A lei da burca tem como finalidade encobrir o nefasto retrocesso civilizacional que está em marcha. A lei da burca é, em si mesma, uma burca!
Este artigo está na última edição em papel do seu jornal Terras do Ave e que já encontra à venda nas bancas.
Outros autores de opinião no mesmo número : Joaquim Cardoso, João Paulo Meneses, Abel Maia, Pedro Pereira da Silva e Carlos Real.
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A edição tem diversos assuntos que merecem ser acompanhados (veja aqui).

