O Terras do Ave tem procurado cultivar uma relação de proximidade com os seus leitores, abrindo as suas páginas a diversos tipos de intervenção, desde do envio de poemas ou artigos fundamentados de opinião até fotografias, denúncias e histórias que encaixam bem na nossa secção “Correio do Leitor”.
É o que publicamos a seguir. O texto que nos foi enviado pelo empresário de Vila Nova de Famalicão David Vieira de Castro, remete-nos para um mistério policial que sucedeu em Vila do Conde e descreve, com pormenor, a atmosfera de uma época do século passado.
A memória do Dr. António Maia
Há recordações que permanecem connosco durante toda a vida, aparentemente esquecidas, até que um dia regressam de repente.
Foi o que me aconteceu recentemente ao recordar uma pequena memória existente à beira da antiga estrada entre a Trofa e Vila do Conde, assinalando o local onde morreu o Dr. António Maia.
O meu interesse por esta história vem de longe. Na minha adolescência passava frequentemente por aquela estrada acompanhado pelo meu pai, natural de Tougues, freguesia vizinha. Havia, porém, um gesto que nunca esqueci: sempre que passávamos junto daquela memória, o meu pai tirava o chapéu em sinal de respeito.
Eu era então apenas um rapaz. Não conhecia verdadeiramente a história daquele homem, mas ficou-me gravada aquela imagem: a estrada, a memória e o gesto silencioso do meu pai.
Os anos passaram e essa recordação ficou guardada algures. Até que, recentemente, ao voltar a pensar naquele lugar, surgiu-me a pergunta: quem era afinal aquele homem perante cuja memória o meu pai fazia questão de tirar o chapéu?
Foi essa pergunta que me levou a procurar a história do Dr. António Maia.
Descobri então uma história trágica ocorrida em 1907. António Maia, advogado e figura conhecida na região, morreu violentamente naquela estrada, na zona de Fornelo. As circunstâncias da sua morte provocaram grande comoção e rapidamente surgiram suspeitas sobre o homem que o transportava, conhecido pelo apelido de «o Caixeiro».
Houve investigação, prisão e julgamento. A população acompanhou o caso com enorme interesse e indignação. Muitos estavam convencidos de que o culpado tinha sido encontrado. Mas uma coisa é a convicção popular e outra aquilo que pode ser provado perante a justiça.
No julgamento, não foi possível demonstrar suficientemente quem tinha cometido o crime e o acusado acabou por ser absolvido. A decisão provocou forte revolta popular e o ambiente tornou-se tão tenso que foi necessária a intervenção das autoridades para proteger o homem absolvido.
E assim ficou uma pergunta que atravessou mais de um século:
Quem matou o Dr. António Maia?
Hoje, a pequena memória continua à beira da estrada. O tempo gastou a pedra e apagou parte da inscrição, mas não conseguiu apagar a história.
Para mim, porém, aquela memória tem agora um significado ainda mais profundo. Não recorda apenas a morte trágica de um homem e um crime que ficou sem resposta. Recorda-me também o meu pai.
Recorda-me aquele gesto simples de tirar o chapéu.
Talvez seja assim que a memória verdadeiramente sobrevive: não apenas nos livros e nos monumentos, mas também nos pequenos gestos que passam de geração em geração.
Um pai tira o chapéu.
Um filho observa.
Muitos anos depois, o filho regressa àquela recordação e procura descobrir a história que estava por detrás daquele gesto.
Foi essa memória que me levou a escrever estas linhas.
David Vieira de Castro (na imagem em baixo)

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