Na passada edição de 12 de Agosto, o Terras do Ave noticiou as declarações do Presidente da União das Misericórdias Portuguesas, que afirmou estar “na calha” a “devolução” do Hospital de Vila do Conde para a Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde. Desconheço se a “devolução” pretendida passa pela transferência da propriedade do Hospital para a Misericórdia ou se, à semelhança do Hospital de São João da Madeira, pela concessão da gestão hospitalar. Em ambos os casos, seria certamente uma mais-valia quer para Vila do Conde, quer para o Sistema Nacional de Saúde.
Primeiramente, e reconhecendo os anos de democracia e de integração europeia que já levamos, seria de elementar justiça pôr um fim aos resquícios sobreviventes da efervescência revolucionária de setenta-quatro-setenta-cinco. Elementar justiça esta que é acrescida quando se reporta a uma Misericórdia como a de Vila do Conde, instituição centenária com uma presença inequívoca no quotidiano de milhares de Vilacondenses e uma obra notável e referenciada no setor social português. Também por isso a gestão do nosso Hospital pela Misericórdia, em regime de concessão e ao abrigo do SNS, seria justamente merecedora de confiança e até expectativa na eficácia da oferta pública de saúde no nosso concelho. Diga-se, aliás, que a complementaridade, ao contrário do que o dogmatismo primário e insuspeito fará crer, em nada colide com a salvaguarda do serviço público de saúde, assegurando (pelo menos) a adequada resposta aos utentes – que, ainda que por vezes esquecida na discussão ideológica, é a preocupação cimeira do SNS…
Mas, dito isto, este é um assunto que apela, forçosamente, a uma reflexão sobre o estado da oferta pública de saúde em Vila do Conde
. A nova USF de Caxinas e Poça da Barca veio robustecer a prestação de cuidados de saúde primários numa zona crítica do concelho – e é devido o mérito ao executivo do Prof. Vítor Costa, não se podendo, com efeito, assacar a absoluta inação municipal no domínio da saúde. No entanto, a oferta pública de cuidados de saúde secundários e terciários encontra-se num estado reconhecidamente insatisfatório, carecido de mais recursos e melhores infraestruturas. E, acrescento eu, melhor organização, não fosse a necessária divisão dos serviços do Centro Hospitalar em duas pólos revelar-se confusa e inconveniente para os utentes (em particular, para os residentes nas extremidades opostas dos dois concelhos) – o que, reconheça-se, não é da directa responsabilidade municipal.
Por isso, e voltando ao início, a concessão da gestão do Hospital de Vila do Conde para Misericórdia ofereceria uma (boa) solução no cumprimento de uma oferta de saúde de qualidade aos utentes do concelho. Seria, contudo, juridicamente temporária e, quiçá, politicamente incerta face às eventuais oscilações político-eleitorais dos Governos. Diversamente, se a referida “devolução” passar pela transferência da propriedade do edifício do Hospital da Nª Sra. da Conceição, revertendo a “nacionalização” de 75, a ULS perderia o seu polo hospitalar em Vila do Conde, o que, não crendo eu ser o tipo de “devolução” a estar “na calha”, obrigaria, no entanto, e mais do que nunca, a colocar a construção de um novo Hospital de Vila do Conde na agenda política. E aqui, sim, será criticável a solução preconizada pelo Prof. Vítor Costa, que, desde o início do anterior mandato, advoga – e promete – a edificação de um polo hospitalar na antiga Casa dos Carneiro Pizarro, na Rua da Costa. Uma solução que, para além de igualmente inconcretizada até ao momento, levanta muitas reservas relativamente à circulação do trânsito nas vias envolventes – especialmente na própria Rua da Costa – e à adequação da dimensão do próprio edificado. E que, de resto, mantém a indesejável desagregação dos serviços médicos em duas unidades hospitalares.
A propósito, e sem prejuízo de melhor solução, talvez não fosse mesmo má ideia recuperar o velho Protocolo de 2008, entre o Ministério da Saúde e os Municípios da Póvoa e Vila do Conde, para a construção de um único Hospital Central, na zona limítrofe a norte do Estádio dos Arcos…
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