O filme de que vos quero falar hoje é um filme americano de 2025, do gênero drama psicológico, realizado por Lynne Ramsay e co-escrito por Enda Walsh que adapta o romance da argentina Ariana Harwic de 2017, sobre uma mãe no interior da França que desenvolve uma depressão pós-parto e entra em psicose.
A obra estreou no Festival de Cinema de Cannes de 2025, a 17 de maio, na competição pela Palma de Ouro. O filme conta com Jennifer Lawrence e Robert Pattinson nos papéis principais e ainda com Sissy Spacek com mãe do protagonista.
A história segue um jovem casal que se muda para uma casa rural e engravida do primeiro filho. Após o parto, a mulher entra numa depressão pós-parto. Sozinha e isolada, a mulher entra numa espiral destrutiva grave. Com o marido a trabalhar e estando num local tão afastado da sociedade em geral, ela entra numa erosão que se torna desesperante de ver. Tudo é amplificado, tudo é exagerado, mas acima de tudo é real. É um retrato cru de um lado da maternidade que raramente visto e exposto desta maneira. O filme não tem medo de nos causar sensações e muitas vezes é mesmo violento na forma como nos esfrega na cara a dura realidade de algo que muitas vezes preferimos ignorar.
Jennifer Lawrence entrega com esta personagem uma das melhores interpretações da sua carreira. É uma atuação física e emocionalmente impactante e não fosse a má receção que o filme tem tido nos festivais mais conceituados, diria que estaríamos perante uma nova onde de prémios para a atriz.
Já Robert Pattinson, no papel do marido e pai, funciona como uma excelente contraponto perante a intensidade de Lawrence entregou. É um registo mais contido e coerente, por vezes até apático, mas que é mesmo o que se pedia perante a interpretação da colega. Os dois funcionam bem na dinâmica do casal embora o filme seja sobre a personagem de Lawrence e Pattinson vive bem com isso.
Infelizmente, como disse antes, o filme não teve uma boa receção nos festivais e a maioria das críticas ficou indiferente ao mesmo. É certo que a realizadora Lynne Ramsay escolheu um tipo de narrativa difícil de prender o espetador. É um ritmo lento e fragmentado onde muitas vezes as cenas querem marcar pelo desconforto. É um filme que te convida a tirar os olhos do ecrã. Não porque é assustador ou nojento, mas porque é pesado emocionalmente e a maioria das pessoas não quer ver um filme para ficar deprimido com o sofrimento dos outros. Diria até que a maioria das pessoas não está preparada emocionalmente para tal.
Na minha opinião, o filme funciona bem porque ele não procura ser consensual. Ele quer chocar e ser emocionalmente marcante independentemente se isso significar mais ou menos pessoas a ver. Esse é o caminho escolhido por Ramsay nos filmes que tem realizado e esta mantém a coerência da sua obra. A meu ver, este poderá ser um daqueles filmes que daqui a uns anos vamos olhar para ele e perceber que afinal é bem melhor do que parecia e essa também é a magia da arte.
Concluindo, o desconforto que o filme causa é também a sua principal arma e se juntarmos a isto uma interpretação brilhante de Jennifer Lawrensce temos uma obra que vale a pena ser consumida. Até podemos não a compreender bem, mas talvez por isso seja mesmo interessante mergulhar nela.
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