Lembro-me bem do jovem Zé Maria a descer a Rua da Misericórdia rumo ao Café Bompastor onde adivinhava encontrar os seus amigos. Preserva a amizade como parte essencial da vida. Tal como a família. Ou não fosse nesta última que abraçou o amor maior, a sua mãe Teresa. A sua paixão é a arte. Alicerçou-a no irreprimível espírito artístico que a vida modesta não castrou e que a brisa de Liberdade emanada em Abril de 1974 potenciou. Tinha, então, 16 anos.

Daí até à primeira Exposição passaram-se dois anos. O Salão Nobre do Clube Fluvial Vilacondense envaideceu-se decorado pelos seus desenhos e pinturas. Trabalho criativo ainda em busca de um estilo e forma de expressão. Foi em 1976 e o Zé Maria comemora, agora, o cinquentenário dessa Exposição. E eu, com estas palavras, celebro-o com ele.

50 anos a desenhar, pintar e criar não é coisa fácil. É uma vida dedicada a perceber, sublimar e exprimir emoções. A procurar o sentido da Beleza através da Arte.

50 anos de trabalho artístico iluminado pela mais pura luz que um artista pode desfrutar – a luz da liberdade. Da coragem de recusar favores que o podem enredar.

50 anos a traçar um caminho único. A descobrir técnicas. Sem mestres. A conquistar um lugar ao sol na vontade de remar contra a maré. E não o fez só para si. Mas também para outros artistas vilacondenses que associou, numa feliz iniciativa conjunta com o saudoso João José, num movimento artístico de autodidactas.

O Zé Maria é feito da liberdade de Abril, de resistência, de aventura e de ternura.

Da liberdade que acolheu no coração para dela cuidar, mimar e galopar perturbações e utopias transformando-as em obras de arte num estúdio que é ventre prenhe de formas e cores.

Da resistência à falta de reconhecimento e apoio à Cultura e à Arte que não o esmorece e o faz procurar a felicidade noutras paragens quando percebe que não pode fazer milagres por ser santo da casa. Às vezes com tristeza, mas nunca baixando os braços.

De aventura de desbravar técnicas diversas. Sozinho. Até encontrar um abrigo que lhe realize os sonhos que traz dentro de si. Talvez tenha encontrado, durante estes 50 anos, no vitral esse desígnio. Porque o vitral é transparência como a verdade, é cor como a alegria e é luz como a inspiração que o Zé Maria sabe exprimir.

E, finalmente, de ternura! Pela vida. Pela arte. Pelas pessoas. E, principalmente por Teresa. A ternura que o fez adoptar o nome da mãe na assinatura da sua obra. Uma ternura que recria a sua criadora. E nos confunde sem sabermos se o Zé é da Teresa ou se é a Teresa que é do Zé.

Parabéns Zé Maria.

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