“É para isto que eles fazem greve?” – atira-me o empregado de mesa enquanto passavam na TV imagens do confronto entre polícias e manifestantes em frente à Assembleia da República. “Mas são só os funcionários públicos” – continuou ele a protestar. “O que eles querem é férias. Hoje greve, amanhã é feriado, sexta-feira fazem ponte e recebem na mesma”. Respondi que não é verdade que recebam o dia de greve, opinei sobre o ataque em curso aos direitos dos trabalhadores e que a violência nada tem a ver com aquela justa reclamação. Que aquelas mulheres e homens, mesmo correndo o risco de represálias nas suas carreiras profissionais, têm coragem de lutar pela sua dignidade e pela daqueles que, apesar de os criticarem, vão usufruir dos direitos por eles conquistados.

Eu tinha chegado nesse dia ao Alentejo, entrei naquele restaurante para jantar e pensei “como está diferente o ambiente no Alentejo…”. É grande a probabilidade dos pais ou avós do meu interlocutor terem participado em jornadas de luta idênticas, mas a propaganda odienta que conspurca o país, impede-o de ver as nefastas implicações na vida das famílias provocadas pela precariedade laboral, facilitação de despedimentos sem justa causa, flexibilização dos horários de trabalho, limitação dos direitos dos pais, restrição aos direitos de maternidade, desvalorização salarial e despromoção de categoria profissional. Como não convergi nos comentários que bolçava, lá me perguntou: “então o que é que vai ser?”.

A Política movimenta muitos milhões e não é de estranhar que, por isso, atraia a ambição desmedida de imorais e desavergonhados corruptos. Tendo como primeiro objectivo a chegada ao “pote dourado”, a ideologia passa a ser um critério dispensável na força partidária a integrar. Tanto lhes serve o partido A como o B, o que importa é que conquiste nas urnas votos suficientes que os eleve ao Poder. Partidos de reduzida expressão eleitoral são olhados de soslaio porque nunca servirão para o assalto ao erário público. E é assim que os vampiros se vão concentrando nos partidos do “arco da governação” … E é neles que o nosso povo vai votando.

As duas reflexões anteriores pretendem retratar as escolhas de um tipo de eleitor. Uma espécie não evolutiva que em nada se distingue dos seus antecessores que maioritariamente, há cerca de dois mil anos, entre um justo e um criminoso escolheram Barrabás.

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