Não me inquieta o desolador resultado conseguido por “Rosa”, a canção que os “Bandidos do Cante” levaram à Eurovisão. Mas preocupa-me que o admirável Cante Alentejano não tenha sido poupado à vergonhosa atitude da banda e da Administração da RTP por não quererem estar do lado certo da História. Causam-me náuseas a hipocrisia, a dualidade de critérios e a falta de neutralidade desta Europa muito “democrática” e das suas “honradas” instituições.
Desde 2022, que a União Europeia de Radiodifusão (EBU) mantém o afastamento da Rússia do certame, numa deliberação “baseada nas regras do evento e nos valores da EBU”. Mas pelos vistos as referidas regras e valores são enxotadas para o lado quando se trata de aplicar a mesma sanção a Israel. Na defesa desta vergonhosa resolução argumentam cinicamente “a neutralidade do evento”. Subservientemente, a RTP apoiou a decisão.
Porém, tal como dizia Manuel Alegre, “há sempre alguém que diz não”. E, numa atitude de grande dignidade, alguns países recusaram marcar presença nesta edição do festival, nomeadamente a Espanha, Irlanda, Países Baixos, Eslovénia e Islândia. Mais de 1100 músicos europeus subscreveram uma carta aberta apelando ao “boicote ao Festival Eurovisão da Canção 2026 como forma de protesto pela participação de Israel no concurso”, argumentando que, “no contexto do conflito em Gaza, a presença daquele país é incompatível com os valores do evento”. Por cá, para além de 300 músicos portugueses terem assinado este documento, também 13 dos 16 artistas concorrentes ao Festival RTP da Canção, anunciaram o boicote em caso de vitória. Curiosamente nenhum deles ganhou. Quem saiu vitorioso foi um dos grupos que se mostrou disponível para participar. Coincidências…
Esse grupo é alentejano e traz na voz o Cante. Que outrora reivindicou direitos sociais e protestou condições de trabalho. Que emprestou Grândola Vila Morena para senha da Revolução dos Cravos. Infelizmente, para alguns, o Cante não lhes mora no coração, só lhes dança na garganta. Convocando Martin Luther King, “o que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. O mesmo é dizer que por mais que tentem separar a música da vida e silenciar posições, acompanhar Israel é ser cúmplice na normalização dos crimes de guerra e no genocídio.
Os artigos de opinião integram sempre o Terras do Ave como os que encontra na nova edição (saiba os assuntos aqui)
Adquirir um exemplar do jornal (um euro) é uma das formas que tem para ajudar esta publicação vilacondense (as outras são, por exemplo, tornar-se assinante ou fazer publicidade), que não possui quaisquer apoios ou publicidade institucionais, a prosseguir a sua missão.
Nas bancas, o jornal aguarda por si nos seguintes locais:
– Café Bompastor (Av. João Canavarro, em frente ao Hotel Brazão),
– Livraria Convívio (Av. João Canavarro, 132, entre os CTT e o Teatro Municipal)
– Tico-Tico Bazar (Centro Comercial Alameda, Av. João Canavarro, 303- loja 12)
– Kappa Café, Areia, Árvore
– Auto Bem Guiados (Av. Júlio-Saúl Dias /Rua 5 de Outubro)

