Já ontem lhe contámos que encontra na edição em papel do jornal Terras do Ave uma entrevista, na íntegra, a João Leite, presidente da Associação Pró-Maior Segurança dos Homens do Mar, um cargo que assumiu em 2023, substituindo um dos fundadores, José Festas.

Ontem tivemos a possibilidade de publicar um pequeno excerto (acesso no final deste texto), mas agora pode verificar a parte da conversa que focou o problema da navegação em segurança em Vila do Conde e na Póvoa de Varzim.

Quem olha para o porto de pesca da Póvoa e para o canal em Vila do Conde repara que há um excesso de areia. O secretário de estado do Mar prometeu que a dragagem ia arrancar nesta semana [a anterior], mas para já nada se vê…

Pelo nome da draga que tenho e pela sua posição atual, atrevo-me a dizer que antes do final do mês ela não deve estar cá. Está ainda muito fora do nosso país.

Mas é uma draga com capacidade?

Não é a draga que precisamos. Acho que neste aspeto das dragagens as pessoas ainda têm que pensar muito sobre o assunto, porque não é solução tirarmos a areia da barra ou dos portos e a despejarmos no mar. Acho que uma das soluções seria uma draga conseguisse, através de tubos, colocar areia a norte e a sul, e depois as câmaras fazerem o arranjo das praias. A gente sabe que a situação da erosão não se resolve com pôr areias, porque elas vão sempre sair, mas pelo menos impede-se que a destruição do litoral possa ser tão rápida.

Mas há anos que o excesso de areias é um problema, nalguma altura vai ter que ocorrer algo de diferente… 

Acho que o porto da Póvoa precisa de uma mudança na estrutura dos molhes prolongando o do sul para fechar um pouco com o cais norte. E assim procurar que a areia volte a fazer o trajeto que tinha antes do prolongamento do molhe norte. Desde então, a areia entra no porto e vai crescer a praia a sul, tirando a norte. Já dissemos isso ao Governo e à Marinha, e os responsáveis têm de se convencer que devem vir ao terreno ouvir as pessoas que estão aqui, que assistiram às mudanças, que conhecem as correntes…ouvir os homens do mar.

A situação está perigosa para as embarcações? 

A situação está muito perigosa, tanto na Póvoa como em Vila do Conde. E temos que jogar muito com as marés. Só do meio da maré para cima [altura] é que se pode entrar. E isto quando o mar está calmo. Se estiver mais vivo, é impensável navegar.

E comparando os dois, Póvoa e Vila do Conde?

As entradas e saídas em Vila do Conde estão melhores do que a Póvoa, mas os barcos maiores só se atrevem utilizar aquele canal para ir para as reparações [estaleiros] e depois de estudar bem a hora que o podem fazer. Trabalhar lá, diariamente, não o conseguem fazer.

Mudando um pouco de assunto, se calhar nem todas as pessoas se lembrarão, mas foi a associação quem negociou a primeira vinda de emigrantes indonésios que eram mesmo pescadores, que sabiam do ofício. Essa foi uma aposta ganha?

Sim porque, caso contrário, não teríamos tido gente e pelo menos metade da frota tinha parado.

Mas permanece um problema legal, que é a restrição ao número de pescadores indonésios  a bordo. Como está essa situação?

O secretário de estado disse no sábado [dia 18] que só falta a assinatura da parte da Indonésia. Mas se for preciso darmos, nós portugueses, governo português, darmos o passo, ir ter com eles e não estar à espera que as coisas venham a ter connosco, devemos fazê-lo. Somos os mais interessados e espero que seja uma situação que se resolva rapidamente.

O setor da pesca está em risco?

Acho que a pesca, neste momento, merece um referendo. Há quem quer continuar, mas também há quem quer desistir só que não têm apoios suficientes para isso. A pesca vai diminuir e é preciso dar condições de modernização a quem se sente motivado. Os outros não podem ser alvo do Estado, que lança uma carga elevada de impostos, após um abate. Algo que, por exemplo em Espanha, não acontece. Ou seja, no abate [das embarcações] as pessoas sentem-se enganadas no final do processo.

E pronto este foi mais um trecho da entrevista a João Leite que encontra, na íntegra, na edição em papel do seu jornal Terras do Ave.

O excerto publicámos ontem está aqui 

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