Chegou mais um Abril, o mês em que habitualmente se celebra a liberdade. E, talvez sem coincidência, a literatura. Neste dia 23 comemora-se o Dia Mundial do Livro, data em homenagem ao falecimento do escritor espanhol Miguel Cervantes.
E eu, caros leitores, leitor me confesso.
Nestas épocas em que usamos as tecnologias para monitorizar as nossas vidas ao segundo, registei no ano passado a leitura de 150 livros no meu Goodreads. Uma média de quase 3 livros por semana. Vá, permitam-me a intimidade destas duas linhas de pedantismo. Afinal, é o que é. Tem o seu quê de bom, mas também encobre a ânsia pela fuga à realidade circundante. Não há para mim narcótico maior para a cura das angústias existenciais do que a música, em primeiro lugar, e a literatura, em segundo. Com algum prejuízo pessoal nesta rítmica e artificial era da produtividade…
Há muito por escrever sobre a literatura e o impacto que tem na minha vida. Mas não sou especial neste “vício”, nem é pretensão minha fazer desta crónica uma exposição pública da minha psique. Com isto, seguramente já vos poupei a mais uns minutos de tédio e vergonha alheia…
Neste Dia Mundial do Livro, quero ressalvar o orgulho que tenho em ser Vilacondense. Vila do Conde tem esta inexplicável sorte cósmica de ser uma cidade e um concelho de escritores. É uma terra com alma e riqueza de vida, que contrasta com a realidade dos concelhos vizinhos e com a visão que a Câmara Municipal tem para a cultura. Não, não é que tenhamos um município alheio à cultura. Mas está longe de corresponder ao potencial de Vila do Conde, particularmente na literatura. E é inexplicável como é que a Póvoa, uma cidade vizinha pasteurizadamente acinzentada e inestética (os meus amigos poveiros que me perdoem), comparativamente menos rica do que Vila do Conde na história da literatura, acaba por ser a casa de uma feira do livro e de um festival literário, que tem vindo anualmente a ganhar dimensão, ao passo que Vila do Conde, literariamente, é mesmo casa de nada…
É uma inexplicabilidade somente ultrapassada pela gritante ausência de livrarias em Vila do Conde.
Como é que a cidade que viu nascer Eça de Queirós e José Régio e albergou Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Guerra Junqueiro e, presentemente, Valter Hugo-Mãe, apenas tem uma pequena livraria de serviço (apesar de histórica), que ainda por cima concentra a sua atividade como papelaria e ponto de venda de material escolar?
E o que dizer da Praça José Régio?
Uma praça em homenagem a um dos maiores vultos da literatura portuguesa e “granjeada” de restaurantes, bares e cabeleireiros. Com o requinte de um ambiente noturno que dignifica tudo menos o nosso poeta… Como é que não há uma única livraria, nem um único alfarrabista nesta Praça, respeitando o espírito de Régio e a promessa aos seus irmãos de ser um espaço de convívio literário e lazer intelectual?
Enfim. Interrogações mortificantes de um vulgar bibliófilo (ou literomaníaco) deste concelho…
Este artigo está na última edição em papel do seu jornal Terras do Ave (veja 1.ª página página aqui).Outros autores de opinião: Abel Maia, João Paulo Meneses, Gualter Sarmento, Adelina Piloto e Carolina Vilano

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