Vila do Conde é terra dotada de uma história milenar, no próximo dia 26 de março comemora os 1072 anos de existência, comprovada com o documento de 26 de março de 953, que é considerado a sua certidão de batismo, efeméride propícia a uma análise histórica retrospetiva sobre o caminho trilhado por Vila do Conde até hoje.
Em 1143 nasce oficialmente Portugal e Vila do Conde deixa de pertencer ao enigmático Conde e passa a pertencer ao rei Afonso Henriques e de seguida ao seu filho legítimo Sancho I, que se enamorou por uma bela senhora – Maria Paes Ribeiro – que vivia por estas paragens, a quem ofereceu Vila do Conde.
Em 1318, foi mandado edificar o Convento de Santa Clara pela trineta da famosa “Ribeirinha” e pelo seu marido Afonso Sanches, filho bastardo do rei Dinis, mas pelos vistos o mais amado. E na sequência da mesma fundação, as freiras clarissas tornam-se durante séculos donas e senhoras de Vila do Conde.
Nos séculos XV e XVI, os estaleiros de construção naval fervilhavam de movimento, calafates e carpinteiros construíam as caravelas e naus para a expansão marítima portuguesa. No porto de Vila do Conde havia uma azáfama constante com produtos vindos de África, do Oriente e a partir de 1500 do Brasil. Construiu-se a rendilhada Matriz apadrinhada por D. Manuel I, o novo edifício da Câmara, abriram-se ruas e casas fidalgas que enobreceram a Vila. Em 1516 obteve um novo foral, que regulou a vida política, administrativa, económica e social.
Nos séculos subsequentes, Vila do Conde mostrou ânsia de liberdade, de autonomia e progresso, vai-se libertando do jugo das clarissas e ampliando os seus limites territoriais, graças às medidas de reorganização administrativa iniciadas em 1836.
Em 1871, o concelho de Vila do Conde com a anexação das freguesias de Aveleda e de Labruge, passa a ser constituído por 30 freguesias, situação que só se alterou com a agregação imposta pelo Governo em 2013, parcialmente revertida em 2024. Ao longo desse processo deixa de ser um concelho exclusivamente marítimo para se tornar predominantemente agrícola, depois fortalecido pela crescente industrialização e serviços.
Na segunda metade do século XIX, a política de obra públicas implementada por Fontes Pereira de Melo chega a Vila do Conde. Inicia-se a modernização das vias de comunicação e dos transportes na própria vila e nas freguesias do concelho: com Bento de Freitas a Vila abre-se ao mar, em 1865 entra em funcionamento a atual EN13, em 1873 a linha de comboio Porto/Póvoa e, em 1893, abre ao público a ponte metálica sobre o Ave. Mas atendendo à precária situação das finanças municipais, foi necessário recorrer a sucessivos empréstimos, agravamento de impostos e outros expedientes para alavancar o ansiado progresso.
A 1.ª República foi de grande instabilidade, agravada pela 1.ª Grande Guerra, e a ditadura salazarista trouxe despotismo, censura, prisões arbitrárias, miséria e emigração. Na autarquia vila-condense reinou a inação, houve sobretudo a preocupação em promover Vila do Conde como destino balnear.
E numa noite de lua clara iniciou-se a Revolução dos Cravos, tendo o município de Vila do Conde aderido entusiasticamente aos novos ideais de Liberdade, Democracia e Justiça Social. Durante os mandatos de Mário Almeida, Vila do Conde ganha o rosto da modernidade nas infraestruturas básicas, nos equipamentos e urbanismo, mas também na preservação do património e promoção do ensino, da cultura e ação social, mas os melhoramentos conduziram ao endividamento progressivo de Vila do Conde, atingindo a dívida pública concelhia quantitativos alarmantes. A oposição persiste em criticar a gestão financeira municipal e fala em despesismo, empreitadas megalómanas, descontrolo de gestão e falta de capacidade de gerar riqueza a nível local. O Presidente contrapõe com uma situação económica e patrimonial equilibrada, mas na realidade o passivo camarário em 2011 ascendia a 75 milhões de euros. A presidência seguinte tentou e conseguiu reduzir a dívida, mas foi sol de pouca dura. E eis nos chegados ao presente que todos conhecemos, em que a situação de endividamento da Câmara Municipal é progressiva e muito preocupante.
Ao longo da caminhada de 1072 anos, o município de Vila do Conde tem vivenciado momentos de progresso, mas também de inação e desgoverno, formula-se votos que no mundo imprevisível e problemático atual, Vila do Conde consiga encontrar o rumo certo para o seu desenvolvimento e bem-estar dos vilacondenses.
Este artigo está na última edição em papel do seu jornal Terras do Ave (veja 1.ª página aqui).
Outros autores de opinião: Abel Maia, Gualter Sarmento, João Paulo Meneses, Pedro Silva Pereira e Fátima Augusto
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