Na última edição em papel do seu jornal em papel, que está nas bancas, encontra uma entrevista na íntegra ao provedor da Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde, Rui Maia. Temos agora a oportunidade de publicar alguns trechos, retalhando a matéria para melhor compreensão. Nesta primeira leva abordamos a reeleição dos órgãos sociais para o próximo quadriénio e Rui Maia dá conhecer a instituição vilacondense que têm vários projetos idealizados.

Foi reeleito para um segundo mandato como provedor podemos falar de uma evolução na continuidade?

Sim, quisemos continuar a levar a cabo todos os projetos que estávamos a desenvolver em Vila do Conde para a nossa comunidade. Quatro anos foi pouco tempo para se fazer as tantas coisas que tínhamos perspetiva e as oportunidades que também foram surgindo.

 

Quais são as atribuições de cada um dos órgãos da instituição?

A mesa administrativa seria, numa empresa, um conselho de administração, uma gerência. O provedor é a figura máxima desse órgão de gestão, em que estão delegadas competências. Depois há o Conselho Fiscal, que é o Definitório, que faz a fiscalização financeira da instituição enquanto a mesa da Assembleia Geral é o órgão máximo da instituição e que representa todos os Irmãos.

 

Os membros dirigentes dão o seu tempo (e saber) de forma gratuita?

Totalmente gratuita. Embora a nova lei das IPSS [Instituições Particulares de Solidariedade Social] permita que os órgãos sociais possam ser remunerados, por decisão de cada uma, na Misericórdia de Vila do Conde é totalmente gratuita. É assim a nossa maneira de servir.

 

A ligação à Igreja Católica é permanente e cultivada?

É permanente, cultivada e está na nossa essência. As misericórdias são de direção canónica, estamos ligados a dioceses e temos todos uma prática religiosa, do catolicismo.

 

Adaptadas aos tempos de hoje ainda se procura fazer as Obras da Misericórdia?

Claramente. As 14 obras da Misericórdia, as sete corporais e as 7 espirituais, têm hoje uma leitura diferente do que tinham há 500 anos, por força de toda a evolução, mas todas elas se aplicam atualmente. O Papa Francisco fala já na 15ª obra da Misericórdia, que tem a ver com o ambiente, com a sustentabilidade, com a natureza, e há de acabar por chegar. É uma preocupação cuidar desse bem comum.

 

Há pouco tempo foi conhecida a entrada de novos Irmãos, como é que se processa a adesão?

A adesão de novos irmãos normalmente é feita por convite da Irmandade. É proposta, em reunião de mesa administrativa, a admissão. É preciso haver a maturidade, o conhecimento e a experiência de pessoas com mais anos de vida, mas também a garra e a irreverência da juventude. Precisamos de toda a gente que queira ajudar.

 

A Santa Casa da Misericórdia foi criada em 1510 e teve os seus altos e baixos como o país. Mas a ideia genérica que existe em Vila do Conde é que desde que o seu falecido pai, Arlindo Maia, assumiu a instituição ela foi crescendo de tal forma que vem vivendo o período de maior fulgor. Concorda?

Sim. O papel das IPSS em Portugal, depois dos anos 85, 86, cresceu bastante. A assistência social aumentou consideravelmente e as Misericórdias começaram a criar lares para a terceira idade, centros para deficientes e valências ligadas à infância. Em Vila do Conde, no pós-25 de Abril, ficámos sem o hospital, que era a única atividade que a Misericórdia tinha, para além do culto. E, portanto, estava completamente parada. O anterior provedor, Eng. Arlindo Maia, com dinamismo enorme, desenvolveu muitas obras e aproveitou todas as oportunidades que havia para colmatar uma falta enorme de respostas sociais. Nessa perspetiva, sim, é um período de muito fulgor.

 

Se isso é uma satisfação, é também um legado pesado. Sente essa responsabilidade?

Acho que é um legado excelente. Pesado seria se tivéssemos os problemas todos para resolver em Vila do Conde. O ideal seria que não fosse precisa toda a assistência social que existe, mas com o legado a tarefa está mais facilitada. E já há muita gente com resposta.

 

Quantos empregos dá hoje a Santa Casa?

Temos mil e 100 funcionários diretos.

 

E quantos utentes tem nas diversas valências?

Devemos ter à volta de 800 utentes internos e dois mil externos. E com cuidados de saúde são alguns milhares.

 

Em termos financeiros, qual é o valor que uma instituição tão grande movimenta anualmente?

O nosso orçamento para o próximo ano passa os 30 milhões.

 

Os encargos com salários e gastos dos diversos serviços atingem que grandeza?

Muito perto dos 70 por cento das despesas.

 

E quais são as principais fontes de receita?

A prestação de serviços. Na área social, grande parte é paga pelo Estado. Uma pequena parte é paga pelos utentes ou pelas suas famílias. Depois temos na parte da emergência, como a Casa das Rosas, o alojamento urgente e temporário e a Casa da Criança que são serviços pagos integralmente pelo Estado, independentemente das vagas estarem ocupadas ou não. E na saúde uma parte é paga pelo Estado e outra pelos utentes ou pelos asseguradores.

 

Ainda se verifica algo que num passado recente era frequente, as pessoas deixarem em testamento algum património ou dádivas para a Misericórdia?

Sim, temos recebido. São fundamentais algumas variáveis para as pessoas que não têm herdeiros decidam deixar algo à instituição. Primeiro que vejam a sua herança, a sua riqueza posta ao serviço dos outros. E para isso é preciso uma instituição dinâmica, que tenha esse trabalho, credibilidade e que dê essa segurança às pessoas. Já houve tempos em que os donativos eram maiores, o que é natural, mas temos sido merecedores da confiança de algumas famílias, o que nos tenho permitido desenvolver muitas das obras já que os subsídios do Estado são sempre insuficientes.

 

Outras partes desta entrevista serão partilhadas nos próximos dias, mas já sabe que pode lê-la na íntegra na versão em papel do Terras do Ave que está nas bancas.

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