Na edição em papel do jornal Terras do Ave, que está nas bancas, encontra uma entrevista ao provedor da Santa Casa de Vila do Conde, Rui Maia.
Publicamos agora mais um trecho em que abordadas questões relacionadas com os projetos e o presente da instituição.
O Estado continua a ser um pagador lento?
Depende das situações. A Segurança Social paga religiosamente e atempadamente todas as suas obrigações para com a instituição. Na área dos cuidados de saúde há atrasos porque o Serviço Nacional de Saúde é sempre deficitário.
O Estado está também a ocupar um edifício da Santa Casa, o Hospital. já há alguma ideia sobre uma eventual devolução do imóvel?
Não, não sabemos se vai ser devolvido nem quando. Sabemos que ele é de grande utilidade para a nova ULS [Unidade Local de Saúde] e aguardamos, com toda a naturalidade, que um dia nos possa ser devolvido.
Esteve presente há pouco tempo na assinatura do acordo entre o Governo e a União das Misericórdias para o âmbito da saúde. O que é que pode mudar na sua instituição?
Este protocolo tem três eixos principais de cuidados: continuados, primários e hospitalares. Os vilacondenses poderão vir a beneficiar da proximidade da nossa prestação de serviços em especialidades que a ULS não dispõe. Poderão ser enviados utentes para a Misericórdia de Vila do Conde em vez de irem para outros hospitais públicos mais distante. Poderemos vir a ter um serviço de urgência básico para as pessoas que, na triagem no hospital, recebam pulseiras amarelas, azuis ou verdes e assim não encravarem as urgências hospitalares. Resumindo, poderemos vir a ter uma relação muito mais próxima com o Serviço Nacional de Saúde,
A Misericórdia tem também o seu hospital, essa valência da Saúde está a correr bem?
Bastante bem. Primeiro preparámos as nossas equipas profissionais e realizámos obras para melhorar a qualidade de atendimento. E agora estamos a responder às pessoas da região que tanto necessitam de cuidados de saúde e que, por vezes, não dispõem deles.
Outra área de atuação é a hoteleira, com o Hotel Brasão, já foi concretizada a elevação de mais uma estrela?
Falta apenas uma pequena parte burocrática. Um hotel de quatro estrelas dá mais segurança. A classificação dos hotéis em Portugal é mais exigente que a maior parte dos países europeus. E, portanto, um hotel de quatro estrelas em Portugal seria cinco estrelas em Espanha. E, portanto, nós temos potenciais clientes que nem sequer avaliam hipótese de ficar no nosso hotel por ele ser de três estrelas. Isto pode não ter efeitos de valorização financeira do hotel, no lugar dos quartos, mas o principal objetivo é mostrar a qualidade do hotel.
A Santa Casa está também a construir um complexo de habitação social. Já há uma previsão para ficar pronta a segunda fase?
Teremos 67 habitações prontas para entregar nos finais de janeiro ou princípios de fevereiro. A partir daí, será todo o processo de integração das pessoas. E provavelmente teremos algumas mais para entregar a meio do ano e outras no final.
Muitos dos vilacondenses não terão a noção, mas aquela zona da cidade vai mudar radicalmente. O que está previsto para o espaço entre o atual complexo em construção e a cooperativa?
Vai surgir ali uma área habitacional completamente nova e grande. No seu conjunto com 235 apartamentos para o programa 1.º Direito, com rendas acessíveis que vão permitir a famílias sem condições financeiras nem habitação, ter um alojamento e uma vida condignos. Haverá uma zona ajardinada grande, um pequeno parque infantil, um supermercado social, um café, uma padaria social, uma lavandaria social e serviços sociais da Misericórdia que farão um acompanhamento muito próximo das pessoas. Teremos lá um departamento para capacitar as pessoas, porque muitas destas não conseguem a integração no mercado de trabalho. E uma sala de formação para ajudá-las a comerem bem, nutrirem-se bem e cozinharem bem, com baixo custo. Teremos uma série de apartamentos com acesso a pequenas hortas, que permitirão aos residentes terem ali alguma subsistência e venderem produtos do dia para o nosso supermercado. Teremos ali um complexo habitacional muito bem dimensionado e que irá fazer muita gente feliz.
Falando ainda de habitação, foi inaugurada também em Vilar do Pinheiro uma unidade residencial, já está a funcionar em pleno?
Não. Este é um problema que tem acontecido: às vezes fazemos as obras mais depressa do que obtemos as respostas. A lei prevê dois tipos de habitação no 1.º direito: para famílias organizadas que podem viver autonomamente e vão para apartamentos, e outro para pessoas que precisam da prestação de algum serviço, de algum cuidado. E para essas existem as unidades residenciais em que a zona de quartos é individualizada, mas depois há uma série de serviços partilhados. E enquanto no aluguer dos apartamentos está perfeitamente definido, na lei, o que é que as pessoas pagam – conforme as capacidades financeiras da família, depois de avaliação – nas unidades residenciais quanto aos serviços ainda não está nada contratualizado nem definido. Já falamos com a Segurança Social, a Câmara também está envolvida nestas negociações para vermos se, no início do ano, arranjamos a solução para que possamos utilizar o edifício, porque neste momento ele não tem ocupação.
Qual é o seu “caderno de encargos” para o futuro próximo?
Há uma oportunidade boa em termos de apoios do PRR [Plano de Recuperação e Resiliência]. Muito dinheiro está a vir para Portugal, algum dele canalizado para a área social e a Misericórdia da Vila Conde, porque há necessidade, tem-se candidato a tudo e a mais alguma coisa. Iremos ter uma nova unidade de cuidados continuados com 90 camas, que já tem garantido financiamento para 60 camas e será em frente à Cooperativa, na tal cidade social que iremos ali realizar. Lá teremos também uma unidade residencial com 120 camas para 3.ª idade e casos de carência e, em Guilhabreu, iremos fazer uma creche para servir várias freguesias que não têm creches. É a zona do concelho que está mais a descoberto nesse contexto.
Com que capacidade?
130 crianças aproximadamente. E estamos agora no processo de lançar o concurso de obra.
E há mais?
Temos várias candidaturas aprovadas para a requalificação de edifícios. Já intervimos em Touguinha [Centro de Apoio e Recuperação de Pessoas com Deficiência], na Casa da Criança e em Macieira [Centro Social]. Vamos requalificar e alterar também o edifício que era Centro social de “O Tecto”.
Tudo financiado pelo PRR?
A maioria sim, mas algumas delas não são comparticipadas a 100%, portanto a Misericórdia terá que complementar.
Na globalidade qual é a previsão de investimento?
Se as obras no seu total vierem todas aprovadas – ainda temos algumas que queremos fazer que não estão aprovadas – será de 30 milhões. Teríamos de apresentar um orçamento retificativo, mas não nos devemos iludir, o nosso orçamento não são 60 milhões de euros, são 30 para os quais temos receitas e estabilidade. Os 60 milhões, se se vierem a concretizar essas obras todas como nós prevemos e terem todas o apoio, atingiremos uma dimensão estratosférica, mas para 2,3 anos.
E em termos da intervenção cultural?
Temos duas historiadoras a trabalhar connosco o tempo inteiro e, no próximo ano, iremos editar um livro sobre a Igreja da Misericórdia cuja construção começou em 1525, há 500 anos. Já reabilitamos a igreja e o seu histórico órgão de tubos e queremos dar dimensão ao Ensemble da Misericórdia, que é um coro de caráter profissional, que irá cantar a algumas freguesias levando a música erudita, a música sacra. Teremos um concerto de memória do eng. Arlindo Maia, na altura da Quaresma e o ciclo de concertos em maio, “Vila Organi”. E ainda o “Spatia Resonantia” nos meses de julho e agosto, todas as sextas-feiras. O restauro do órgão custou bastante dinheiro e ele tem de tocar e cativar as pessoas para a música.
Relativamente há pouco tempo, a Santa Casa absorveu uma instituição, o “Tecto”, e muitos vilacondenses perguntarão se uma solução desse tipo não pode acontecer em relação à Ordem Terceira de S. Francisco – até porque há aqui uma ligação religiosa – que também tem vivido dificuldades semelhantes?
De facto, nós fomos arrojados na maneira como assumimos claramente a possibilidade de ficar com todo o ativo e passivo de “O Tecto” e quando falo do ativo falo dos utentes e dos funcionários. Tivemos a felicidade de ter sido muito fácil a articulação com os dirigentes e contámos com uma extraordinária boa vontade de todas as pessoas que lá trabalham e de todos os utentes. Hoje podemos dizer que a Misericórdia tem este filho como sendo seu desde o início e está completamente normalizada toda a situação. No caso de São Francisco, pertence a uma ordem religiosa, que tem todas as suas ligações, não é uma associação individual, tem uma hierarquia dentro da ordem franciscana, e, portanto, não penso que seja nem uma situação comparável, nem igualmente fácil. Julgo que a Ordem Terceira terá condições de, com a ajuda de todos, dar a volta aos problemas que têm surgido. Creio firmemente nisso.
Array
