Lembro-me da caixa de bolos em cima do balcão e do olhar e sorriso do senhor por trás dele. Um olhar sorridente que percebia quanto eu desejava aquele bolo. Trocá-lo pelas únicas moedas que guardava no bolso. Transformar o parco dinheiro num momento de prazer em forma de lambarice recheada de tradição e histórias de um mestre chocolateiro e das freiras de Santa Clara. Normalmente escolhia o bolo de chocolate. O melhor do Mundo. Mais tarde descobri outros. O caramujo, o de natas, o de feijão, o de ovos. Ah, o de ovos… Que maravilha! E tudo dentro de um espaço que era o espelho do casal. Antigo, simpático, modesto e limpo.

Um pouco à frente, havia outra casa perfumada de doces tradicionais. Era difícil classificar se aqueles eram melhores. Eram igualmente bons doces. O que era excelente. Pecava um atendimento menos próximo que era esquecido à primeira trincadela num carioca. O salão era de chá. Mais requintado do que o primeiro e, geralmente, apinhado de distintos clientes forasteiros. Pessoas que visitavam a nossa terra, atraídas por uma adoçada experiência na hora do lanche. Visitantes que, além do consumo no local, não abalavam sem levar uma embalagem recheada das memórias dessa tarde. Habitualmente lanchavam num local e despediam-se da vila comprando no outro. Escolher só um deles era tarefa árdua.

Nos meses de Verão, as gulodices viajavam para a praia. Depois dos mergulhos e do corpo aquecido ao sol, as bocas aguavam-se à medida da aproximação do baú mais delicioso do Mundo transportado na cabeça da D.ª Aninhas. Uma figura incontornável quando a memória apela à praia e à nossa doçaria tradicional e conventual.

São doces memórias de quem saboreou, nos seus tempos áureos, o maior embaixador da nossa gastronomia, o ícone dos sabores vilacondenses. Uma imagem que, infeliz e progressivamente, se vai esbatendo. E, por isso, deve convocar-nos para um caminho que a reverta e avive evitando que se extinga e passe a ser apenas uma história a contar aos netos. Nenhum de nós pretende ficar associado ao seu desaparecimento. Um produto que marcou o nosso passado merece que lhe seja garantido futuro.

O doce conventual e tradicional vilacondense não é apenas um doce. É emprego. É turismo. E principalmente é identidade vilacondense.

Publicado na última edição em papel do jornal . Outros autores de opiniões no mesmo número: João Paulo Meneses, Adelina Piloto, Abel Maia e Carlos Real.

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