Com o fim do ano a aproximar-se, penso poder afirmar que, em matéria de defesa nacional, 2024 ficará marcado pelo ressuscitar do debate sobre o regresso do serviço militar obrigatório, tido por alguns dos seus defensores como uma espécie de panaceia para os problemas das Forças Armadas e sempre acompanhado das românticas evocações do serviço à pátria.

Mas a pergunta que deixo no ar é a seguinte: será que precisamos mesmo de obrigar os jovens a trocar a capa e batina pelas fardas para enfrentar as ameaças deste século? É que, hoje, as guerras já não se vencem com tanques, mas com bytes.

No contexto das guerras híbridas, a cibersegurança e a soberania digital emergem como a maior das preocupações, especialmente para Portugal, membro da NATO e que, pela sua localização geográfica, enfrenta menores riscos de invasão territorial. As ameaças modernas já não são soldados nas nossas praias, mas crackers nos nossos serviços e infraestruturas críticas!

O foco deve, pois, estar na criação de um novo ramo das Forças Armadas dedicado à cibersegurança e no consequente recrutamento de especialistas na área, onde necessitamos de um urgente reforço de quadros. E, para o efeito, a ligação entre a defesa nacional e a academia é fundamental, já que o investimento em investigação e desenvolvimento (I&D), para além de impulsionar a economia, fomentando a inovação e a criação de emprego qualificado, acaba por ser o principal caminho para fortalecer as nossas capacidades de defesa.

Parece-me, portanto, mais prioritário uma estratégia política integrada, que repense e valorize as carreiras e ramos militares, aproveite plenamente os nossos recursos (por exemplo, a ZEE e a plataforma continental) e promova a colaboração com as instituições de ensino superior, desenvolvendo a defesa nacional na esfera económico-científica.

Como na música de Rui Veloso, a resposta aos desafios da defesa não passa por obrigar os jovens à máquina zero! Nem as Forças Armadas, perante a complexidade das ameaças deste século, se podem dar ao “luxo” de ter nas suas fileiras delinquentes para “pôr na linha” ou desengonçados contrariados!

Portugal tem de ser um exemplo de adaptação estratégica, sem recorrer a soluções do passado que não condizem com as mentalidades e os desafios do presente.

Publicado na última edição em papel do seu  jornal Terras do Ave. Outras opiniões: Miguel Torres, Romeu Cunha Reis, João Paulo Meneses e  Carlos Real

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