Apesar de viver há 12 anos no Reino Unido, só há poucos dias é que descobri que para os habitantes deste país eu vim do ultramar. Como os britânicos vivem numa ilha, tudo o que está fora dela passa a ser o ultramar, ou, como eles dizem, overseas – uma das palavras mais usadas no seu léxico.

Curiosamente comecei a pensar nisso quando surgiu a notícia da devolução do arquipélago das Ilhas Chagos às Maurícias, ilhas estas que têm o nome oficial de Território Britânico no Oceano Índico, um nome que é um eufemismo que serve para ocultar a História deste território ultramarino. Para quem não sabe, as ilhas Chagos são um pequeno arquipélago entre África  e Índia que foi retirado às Maurícias quando estas ilhas se tornaram independentes em 1965 porque os britânicos queriam fazer o leasing de uma ilha aos Estados Unidas

Um episódio que resume um pouco da História do Império Britânico, um império onde o sol nunca se punha, mas que para sobreviver disfarçava atos horrendos com eufemismos.

Por exemplo, estas ilhas tinham milhares de habitantes e passaram a ter uma ocupação meramente militar, sobretudo na ilha de Diego Garcia. Tudo porque os ingleses expulsaram a população local, aquilo a que poder-se-ia chamar limpeza étnica, mas que se eufemiza em relocalização da população.

Há cerca de três anos chegaram novos habitantes, refugiados Tamil do Sri Lanka que vinham num navio que naufragou. Desde então estão num pequeno campo, rodeado de arame farpado, em condições inumanas que já provocaram várias tentativas de suicídio. Se para alguns podia ser chamado Campo de Concentração, a BBC chama “um pequeno campo vedado” como se fosse um simpático acampamento de escuteiros.

Resta saber agora o que lhes vai acontecer, se vão ser deportados para o Sri Lanka onde voltarão a ser perseguidos ou se vão ter direito uma viagem com tudo pago para o seu país-natal onde podem jogar às caçadinhas com o governo.

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