Chegaram os Jogos Olímpicos, aquelas duas semanas em que todos nas redes sociais se tornam especialistas em assuntos mais ou menos obscuros.
Este ano todos puderam opinar sobre pintura renascentista aplicada a refeições com figuras sentadas apenas de um lado da mesa, boxe feminino na categoria de menos de 70kg e prestações de atletas portugueses em modalidades que só são vistas uma vez a cada quatro anos.
Como não tenho nenhum doutoramento em História de Arte nem tenho o hábito andar à pancada, vou apenas debruçar-me sobre o último assunto, já que pratiquei algumas das modalidades olímpicas por lazer e sigo outras tantas com mais afinco que o futebol.
Vivemos num país livre e portanto é bom podermos criticar, mas muitas das críticas aos nossos atletas são de quem não tem a mínima noção do que é o desporto.
Por exemplo, na minha melhor maratona demorei quase mais uma hora e meia que a Rosa Mota. Tudo porque infelizmente não reúno características genéticas únicas e não tenho a perseverança e o espírito de sacrifício que estes atletas têm. Ir aos Jogos Olímpicos significa estar pelo menos no restrito grupo dos 0,1% melhores do mundo numa atividade, e quem está deitado no sofá a escrever coisas negativas no telemóvel, provavelmente nem sequer se posiciona no top 50% mundial do bitaite.
E, no caso português, estamos a falar de atletas de top mundial que recebem bolsas entre os €800 (apoio à qualificação) e os €1750 (medalhados) mensais.
É certo que em alguns casos houve uma clara falta de preparação em entrevistas à comunicação social, uma tradição que já vem dos tempos em que o atual guarda-costas de André Ventura preferia ficar de manhã na caminha. Mas também com 800 euros por mês, que dinheiro sobra para contratar um assessor de imprensa ou mesmo participar em workshops de comunicação?
Publicado no jornal a 7 de agosto. Outras opiniões: Romeu Cunha Reis, Pedro Pereira da Silva, João Paulo Meneses, e Carolina Vilano.

