Há provérbios, talvez a maioria deles, que encontram as raízes na experiência e sabedoria populares. Gosto destes. E outros que parecem ter origem na ganância, egoísmo ou ingratidão. Com estes embirro. Já há tempos impliquei com um numa crónica que escrevi – Tempo é dinheiro – como se fosse um desperdício dedicá-lo à família, à amizade, à solidariedade ou à cidadania.

Questiono as informações. Rejeito aceitar como verdades tudo o que ouço. Opto por perceber e formar opinião. Incluindo os ditados populares. E agora, que me retiro do mundo profissional, há um que me assalta à mente – Só faz falta quem cá está.

Convictamente discordo! Logo à partida, porque é estúpido. Quem cá está, está. Não faz falta! E numa apreciação mais atenta, porque revela tudo o que o ser humano tem de pior. No mínimo, é um sentimento repugnante a falta de reconhecimento e gratidão por aqueles que estão ausentes, mas pelo seu esforço, empenho, dedicação e trabalho colocaram determinada família, empresa ou grupo num estado melhor ou superior ao que herdaram. Também no domínio privado, há que reconhecer a relevância de pessoas que, mesmo deixando de fazer parte da nossa vida, tiveram importância fundamental na construção da pessoa que somos hoje. E, por isso, não estando cá estão sempre presentes.

É possível que o mesmo Povo que inventou a palavra saudade possa forjar tal adágio? Pode um Povo sentir dor pela ausência e simultaneamente afirmar indiferença por quem não está cá? De que maneira ficaria descaracterizada a nossa Cultura e a nossa Arte sem o sentimento da saudade? O que seria do Fado?

A expressão “só faz falta quem cá está” resulta do despeito, da arrogância e do orgulho ferido perante quem não correspondeu a uma expectativa. Mas como encarar, então, o falecimento de familiares e amigos? Não fazem falta porque não estão presentes? Absolutamente. Sentimos asco só de pensar que se possa pensar assim. Nada mais errado do que associar o sentimento de falta à presença ou a ausência de alguém.

Nos mais variados tipos de grupo há, quase sempre, presentes que não fazem falta nenhuma. E há quem esteja ausente a fazer tanta falta. Infelizmente.

 

Array