Opinião de Elizabeth Real de Oliveira

O livro identidade e família tem das ideias mais retrogradas que tenho visto ser apresentadas nos últimos anos, fruto do contributo de 22 autores em “defesa” da família e contra a eutanásia, aborto e ideologia de género. Ideias que cheiram a mofo tais como algumas das individualidades que as defendem e que só entrou na agenda mediática pelo facto de a obra ter sido apresentada pelo antigo primeiro ministro Pedro Passos Coelho. Esta agenda mediática que também demonstra intencionalidade em dar relevo a algumas notícias (que causam mais polémica) em detrimento de outras (mais sérias e importantes para o país). Por isso em vez de estarmos a discutir medidas concretas para o crescimento económico de Portugal, entretém-se a opinião pública com fait-divers.

Com tanto mediatismo não resisti a fazer uma leitura rápida do livro, até porque, por uma questão de princípio, não se deve formar uma opinião sobre determinado assunto sem ter pleno conhecimento do que se diz, ou pior ainda do que se escreve. E conclui, o que já sabia à partida, tendo em consideração, os autores, e a sua visão já transmitida noutros artigos, textos de opinião e entrevistas que foram apresentando ao longo das suas vidas. Trata-se duma perspetiva conservadora, ultrapassada e antagónica à minha. E? Não têm o direito de a expressar?

As visões apresentadas sobre a identidade e a família, que não reproduzo intencionalmente, acho ridículas e não me mereceriam nenhuma consideração se não fosse a indignação de tantos. Mas o que mais me levou a refletir e já se me afigura muito mais perigoso, é um mundo onde a liberdade de expressão só funciona se for em concordância com a minha.

Assim, próximos dos 50 anos do 25 de abril, relembro aos mais críticos, George Orwell “se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir”.

Publicado no jornal a 17 de abril. Outras opiniões: Miguel Torres, Elizabeth Real de Oliveira, R. Cunha Reis, João Paulo Meneses e Marta Ramos. Na atual edição em papel: Abel Maia, Gualter Sarmento, Adelina Piloto, João Paulo Meneses e Carlos Real.

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