Opinião de Pedro Pereira da Silva
O espírito de Kafka continua deslumbrado com o cenário político em Vila do Conde. Depois de uma descoordenada e subserviente Marquesa ter aberto a sessão, a Assembleia segue para o segundo ato. E ainda não se abriram as cortinas, continuando a Marquesa no uso da palavra, eis que interruptamente emerge uma figura do alto do pedestal do poder local, com uma imponente presença em bicos de pés, tomando a cena para si. O silêncio abate-se sobre a Assembleia, todos os olhos lhe miram.
Eis, pois, o Conde em funções, responsável pela gestão dos destinos da Vila e o verdadeiro maestro da orquestra desafinada neste espetáculo… Inquirido pelos deputados da Assembleia, as suas respostas são um labirinto de evasões, declamadas com o máximo dos ardores, em respeito ao guião dramático. Alega (para inveja de Kafka) que a Câmara e a Assembleia são como que entidades distintas, figuras alheias ao todo de um Município, na ignorância conveniente de que ambas são órgãos do mesmo e de que toda a sua atividade, seja da Câmara, seja da Assembleia, é atividade municipal e, por isso, a ser fiscalizada pela Assembleia.
Esta separação fictícia, aparentemente criada neste mandato, serve apenas para blindar o Conde e os seus mosqueteiros de qualquer fiscalização efetiva, transformando a prestação de contas numa peça de teatro onde as falas acabam em monólogos de negação e vitimização, mas que resultam na mais flagrante violação dos deveres legais e políticos de sindicância a que o Conde está sujeito. Só que a oposição vai resistindo e exige respostas. E eis que o Conde, submerso na sua autenticidade, começa a enfurecer perante as tentativas de esclarecimento, “esquecendo-se” que a democracia é uma orquestra de diversas vozes e instrumentos e não um monocórdico e acinzentado soneto de incontestada autoridade. E então, vendo na pluralidade um obstáculo, perante os que insistentemente dizem “nós queremos saber”, eis que o Conde proclama: “Há uma forma de conhecer, de saber e de decidir, que é ganhar a Câmara Municipal!”.
Retidos num limbo, defronte de um gigantesco muro de arrogância, os deputados da oposição não querem acreditar. Um lastimável ditatorial clima de tensão começa a tomar conta da Assembleia. Os ânimos exaltam-se, mas ainda há muito por jogar. O Conde, ciente de que as suas ações começam a ultrapassar os limites da razoabilidade, opta por estrategicamente se socorrer do seu partido, chamando a palco o seu mensageiro, o porta-voz parlamentar. Encaminha-se o terceiro ato…
Publicado no jornal a 17 de abril. Outras opiniões: Miguel Torres, Elizabeth Real de Oliveira, R. Cunha Reis, João Paulo Meneses e Marta Ramos. Na atual edição em papel: Abel Maia, Gualter Sarmento, Adelina Piloto, João Paulo Meneses e Carlos Real.
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