Opinião de Pedro Oliveira da Silva

Em tempos de “aumentos históricos” nas pensões, em que o preço do pão cresce mais depressa do que a paciência coletiva e os combustíveis queimam tanto os nossos bolsos como o ambiente, eis que os políticos continuam com os seus salários estagnados.

A sociedade da informação, voraz pelo sensacionalismo, e o populismo, alimentado pelo espetáculo mediático, têm transformado a política portuguesa num verdadeiro circo. Os media, na natural incessante procura pelo lucro, e os populistas deste país, sedentos de chegar ao poder, acabam por conseguir manipular as emoções dos portugueses, explorando o sentimento de cólera que há muito vem crescendo na sociedade. A realidade política dos dias de hoje desafia a capacidade do comum dos mortais de se manter adequadamente informado e de empaticamente compreender os políticos envoltos no xadrez do poder, intensificando a pressão sobre a nossa democracia, já asfixiada pelo eviterno e imemorial fantasma da corrupção.

Hoje, mais do que nunca, a exigência sobre os políticos é colossal. Confrontados com o aumento do poder dos grandes grupos económicos, os titulares de funções públicas enfrentam um teste de independência sem precedentes. E a pergunta que impera é: que condições depositamos num político para assegurar a sua independência? E quão atrativo é o exercício de funções públicas, aos dias de hoje, para os mais capacitados do nosso país?

Consideremos uma área setorial da governação. Por exemplo, o ambiente/ energia. E consideremos o administrador de uma multinacional do setor a operar em Portugal. Por exemplo, a EDP. Enquanto o administrador da EDP leva mais de 80 mil euros mensais, o nosso Ministro do Ambiente e/ou Energia (seja ele qual for) vive à base de 6500 euros brutos mensais, que já inclui as despesas de representação, mas não inclui o tsunami de preocupações e pressões e toda uma exposição mediática que só atrairia um masoquista (ou um sociopata!). Pergunta de um milhão de euros: quem quer ser político?

Se queremos líderes imunes à corrupção, capazes de resistir à tentação de atalhos de fortuna, devemos começar por lhes garantir que o exercício das respetivas funções é devidamente remunerado, para que possam verdadeiramente gerir e evoluir o país e não tenham que chegar ao final do mês fazendo contas para conseguir sustentar as despesas da família e os custos de uma exigente vida social marcada pelas aparências e caras fatiotas. Porque a verdade é que a remuneração inadequada dos nossos políticos abre as portas à corrupção e ao desinteresse dos mais capazes e virtuosos. Como podemos esperar atrair os melhores deste país para a governação, se a remuneração mal cobre o custo de uma vida esbulhada do sossego, da família e, não raras vezes, do respeito?

É caso para dizer, políticos de todo o país, uni-vos!

 

 

Publicado no jornal a 24 de janeiro. Outras opiniões: R. Cunha Reis, Eliana Miranda de Sousa, João Paulo Meneses, Miguel Torres e Elizabeth Real de Oliveira. Na atual edição em papel: Abel Maia, João Paulo Meneses, Gualter Sarmento, Adelina Piloto e Sara Padre.

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