Opinião de Gualter Sarmento

Na década de 60 do século passado, um homem deslocava-se todas as noites com uma vela na mão até à frente da Casa Branca como forma de contestação à guerra do Vietname e à ingerência dos Estados Unidos no conflito. Todas as noites. Sozinho. Os jornalistas, curiosos, questionaram-no sobre a razão de ir todos os dias protestar sozinho se, com isso, não mudava nada. O homem respondeu que poderia não mudar nada. Mas fazia-o para não se deixar mudar.

Um amigo relembrou-me, há dias, esta história que continua a viajar no tempo. Sobrevive porque é rara esta forma de estar tão limpa. Simultaneamente comprometida e desapegada. A viver em harmonia com a essência do que somos. Rejeitando calculismos egoístas.

Se alguém, em particular, te diz que concorda com as tuas ideias interessantes e inovadoras, mas em público se distancia de ti, mudas a tua forma de pensar?

Se, em privado, te confidenciam problemas laborais e sociais e te reconhecem predicados de justiça e ética, porém abrigam-se no outro lado da barricada, optas por critérios diferentes de conduta?

Se descobres a deslealdade de alguém que te acompanhou em projectos de renascimento de uma tradição ou na defesa do património comunitário, desistes de contribuir para a causa colectiva? Se as pessoas encontram mais segurança no Ter do que no Ser, estendem a mão ao Poder, viram as costas à justiça e à decência e, consequentemente, recolhem vantagens materiais, achas que o caminho é desiludir os teus ideais, convicções e carácter?

Há momentos em que nos questionamos se vale a pena continuar a pautar o nosso comportamento por valores e não por interesses. Mas apesar de conhecer o saldo e ter já sentido a frieza de uma lâmina nas costas, não troco o carácter, as convicções e os ideais por lugares ou mordomias nem os deixo abalar por pressões externas, desilusões interesseiras nem traições calculistas. Porque é quem tem medo, quem desilude, e quem trai que está errado e, por isso, quem deve mudar. Porque acredito nos valores da solidariedade, da justiça, da liberdade, da lealdade e do respeito pelos outros! Porque penso no que acredito. Porque acredito no que penso. Para não me deixar mudar!

 

Publicado no jornal a 10 de janeiro. Outras opiniões: Abel Maia, Adelina Piloto, João Paulo Meneses e Fátima Augusto. Na atual edição em papel: R. Cunha Reis, Miguel Torres, Eliana Miranda de Sousa, João Paulo Meneses, Elizabeth Real de Oliveira e Pedro Pereira da Silva.

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