
Opinião de Miguel Torres
Portugal, por vezes, é um país surpreendente para mim. Uma dessas surpresas é o estado a que os canais de televisão generalistas chegaram.
Aqui, no Reino Unido, temos uma televisão chamada BBC, que equivale à RTP mas com programas a sério. A BBC não passa publicidade vivendo de uma taxa paga por todos aqueles que têm ecrãs em casa para assistir a televisão em direto ou qualquer serviço de streaming. E, ao ser a estação que tem mais audiência, faz com que as restantes se tentem adaptar às regras ditadas pela televisão pública.
Por essa razão existem algumas especificidades que devem surpreender o público português. Os programas começam sempre à hora certa (ou à meia hora, em casos raros), os telejornais duram 30 minutos e a publicidade nos restantes canais tem intervalos de cerca de dois minutos.
Já em Portugal, olhando para a grelha da RTP num dia ao calhas, o telejornal começa às 19:59, o Joker começa às 21:06 e o Grande Debate às 21:57. Os telejornais demoram mais do que um filme neorealista Checoslovaco dos anos setenta com um enchimento de chouriços dignos de uma feira de fumeiro em Montalegre. Já a publicidade é tão longa que um domingo comecei a ver o “Isto é gozar com quem trabalha” logo a seguir foi para intervalo, voei para Inglaterra, estive cá seis meses e quando regressei ainda estava a passar um anúncio da Linic antes do programa regressar. Salvam-se os canais de cabo, que têm uma programação em horário nobre de qualidade inequívoca.
Debates futebolísticos marcantes e transmissões de relatos de jogos enquanto se filmam bancadas estão em todos os livros de estilo das principais televisões mundiais. Prestam um serviço público que permite que todos os portugueses arranjem assuntos para discutir nos empregos e matéria para fazerem comentários nas redes sociais.
Publicado no jornal a 24 de janeiro. Outras opiniões: R. Cunha Reis, Eliana Miranda de Sousa, João Paulo Meneses, Elizabeth Real de Oliveira e Pedro Pereira da Silva. Na atual edição em papel: Abel Maia, João Paulo Meneses, Gualter Sarmento, Adelina Piloto e Sara Padre.
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