
Opinião de Eliana Miranda de Sousa
A reunião familiar no Natal era o acontecimento do ano mais esperado. E quando digo reunião, era mesmo um grande ajuntamento de tios, primos e a avó. Éramos tantos, que tínhamos que improvisar a mesa da ceia, que, basicamente, eram duas mesas juntas, não forçosamente do mesmo formato, ficando aquelas mais de 20 pessoas distribuídas em longos bancos de madeira, despachando-se os miúdos para a cozinha, mesmo ali ao lado e bem junto do fogão a lenha, o sítio mais quentinho, portanto.
Mas antes de toda esta ansiedade da partida, várias vezes de comboio, para a casa da avó, em S. Pedro de Rates – tenho, orgulhosamente, uma costela poveira e outra vileira – e, da alegria de ir vendo os primos a chegar, havia um outro grande acontecimento na época do Natal: o dia em que as luzes dos dois gigantescos pinheiros do centro de Vila do Conde se acendiam. Aquelas lâmpadas enormes, muito coloridas, que vistas de longe, quando se vinha de Azurara, por exemplo, eram um regalo ao olhar!
Voltando à confusão da casa da minha avó, findo o jantar, esperávamos pela meia-noite, não para abrir as prendas, mas para irmos à missa do galo. À meia-noite, os foguetes estouravam de tal maneira, que parecia que a velhinha igreja românica de S. Pedro de Rates vinha abaixo! Eu passava a missa toda a olhar para o enorme presépio que lá se montava: qual cascata sanjoanina, tinha ali uma aldeia inteira, até um rio!, em miniatura, ocupando praticamente toda a parede norte da igreja, também tudo iluminado com umas lâmpadas gordas e de muitas cores.
Isto para vos dizer que estas memórias de infância – as viagens de comboio, os sítios, as pessoas, as celebrações, as tradições, as decorações – são para mim um verdadeiro património. A memória é um bem tão precioso, que “bendita a hora” que se deu início a processos de preservação da mesma, em tantos lugares por este pequenino, mas tão rico, Portugal.
Aproveitem o vosso Natal para partilharem e manterem essas memórias, para que fiquem registadas, para que não se percam. O bonito desta vida é olhar para trás e ver a beleza das coisas com que já fomos brindados!
Publicado no jornal a 27 de dezembro. Outras opiniões: Miguel Torres, R. Cunha Reis, Carlos Real, e João Paulo Meneses. Na atual edição em papel: Abel Maia, Gualter Sarmento, Adelina Piloto, João Paulo Meneses e Fátima Augusto.
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