
Opinião de Miguel Torres
Este título podia ser de uma música do Quim Barreiros mas, na verdade, é sobre macroeconomia.
Se nos últimos anos observámos um aumento considerável da inflação em toda a Europa e a alguma desvalorização do Euro face ao Dólar, existe uma moeda obscura que teve uma valorização galopante nos últimos vinte anos. Estou a falar do Pau, claro.
Ainda sou do tempo em que com quinhentos paus não se conseguia sequer comprar uma refeição. Talvez fosse possível num tasco manhoso pedir o prato do dia, mas nada mais do que isso. Hoje em dia 500 paus podem bem ser uma inteira pensão de reforma. Lembro-me bem dos tempos em que cem paus se pagavam com moedas e em que os cafés se bebiam por cinquenta ou sessenta paus.
Até que, em 2003, o Euro começou a circular e o Pau entrou em desuso, saiu de moda. Juntamente com ele, a outra moeda mais utilizada em Portugal, o Conto, desapareceu. Nunca pensei que alguma vez voltassem a circular, e quando emigrei, em 2012, ambas estavam desaparecidas. Mas, em recentes visitas, percebi que o Pau foi fazendo o seu caminho e acabou por voltar ao bolso da grande maioria dos portugueses. Mas com um valor 200,482 vezes superior ao que tinha há vinte anos atrás.
A Bitcoin ao lado do Pau é apenas uma brincadeira de crianças. Se eu tivesse retirado todo o meu dinheiro em escudos da minha conta em 2003 e tivesse colocado em paus em vez de converter para euros, nesta altura seria milionário. Bem, se calhar não, porque na altura era estudante e devia ter uns 50 euros na conta, mas pelo menos ficava com 10.000 paus que já dava para alugar um T0 durante os meses de verão na marginal de Vila do Conde.
No final de uma época de consumismo desenfreado, que agora recomeça com os saldos, fica aqui a lição: se pouparmos e investirmos corretamente, a longo prazo as nossas finanças estarão bem melhores. Se hoje sabemos como cresceu o pau, um dia pode ser o conto a regressar. Pensem nisso.
Publicado no jornal a 27 de dezembro. Outras opiniões: R. Cunha Reis, Eliana Miranda de Sousa, Carlos Real, e João Paulo Meneses. Na atual edição em papel: Abel Maia, Gualter Sarmento, Adelina Piloto, João Paulo Meneses e Fátima Augusto.
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