Para (re)conhecer as bases desta altura marcante na sociedade católica entrevistamos o prior de Vila do Conde, Paulo César Dias, que faz o devido enquadramento religioso do momento festivo em honra do nascimento de Jesus Cristo. Mas aproveitamos também outra condição do responsável pela paróquia de S. João Batista (Matriz), a de ser um especialista em História (possui o mestrado pela Universidade do Minho), para sabermos quais as tradições que se colam, com propriedade, à mensagem central celebrativa (e até como surgiram) e as que, por outro lado, se encaixam somente numa narrativa de estímulo ao consumismo desenfreado. Além disso, neste tempo de reforçados convívios familiares, registamos a preocupação do sacerdote com os casos de solidão que grassam também em Vila do Conde.
Começando por um caráter pedagógico, qual a importância do Natal para Igreja em comparação, por exemplo, com a Páscoa, a Ressurreição de Cristo, que é a pedra basilar do catolicismo?
A pedra basilar do catolicismo é Jesus Cristo. Só Cristo é pedra. E nós, batizados em Cristo, também somos pedras vivas. Mas, há pedra e pedras: Jesus, por essência, por natureza, é a pedra basilar, pedra angular. Nós somos pedras vivas por missão e participação missionária. Como tive a oportunidade de explicar na homilia da Solenidade de Cristo Rei do Universo, no último domingo do ano litúrgico, nos primeiros séculos a grande celebração era a Páscoa, a celebração que recorda e atualiza a ressurreição de Jesus Cristo. No entanto, com a consolidação do Cristianismo e com o desenvolvimento do pensamento litúrgico, pelo século IV, oficializou-se a solenidade do Natalis Domini. Assim, para que percebamos de forma sucinta, a sagrada tradição chegou a celebração do Natal de forma retrospetiva, partindo da ressurreição, reconhecendo que o Menino que havia nascido em Belém era (é) Deus. Ele nasceu para morrer e ressuscitar. Em síntese, podemos dizer que só celebramos o Natal porque aconteceu a Páscoa, sendo que a Páscoa é o fim e a razão do Natal.
Ainda no campo do esclarecimento, a celebração do Natal no dia 25 de dezembro foi uma escolha do imperador Constantino no 1.º século D.C. Não é conhecida a data certa do nascimento de Jesus? E qual o motivo para o festejo ser nesta data em concreto?
O Imperador Constantino reinou no século IV e foi ele que, no ano 313, concedeu à Igreja Édito de Milão, possibilitando a liberdade de expressão religiosa. Contudo, a questão dos dogmas, a definição das solenidades e festividades, o ano litúrgico, de entre tantas outras questões, ficou sempre a cargo do magistério da Igreja. A celebração do Natal dá-se a 25 de dezembro e existem várias explicações para tal facto. Convenhamos que muitas delas encontram-se amplamente desatualizadas, não deixando de ter algum lastro histórico. Assim, assinalar o 25 de dezembro como Dies Natalis, segundo as antigas teorias, resultava, por parte de Roma, como um ato de contraposição ao mito do deus Mitra, ou como reação cristã ao culto do sol invicto. Numa perspetiva mais poética e teológica, aventamos a teoria (que me atrai imenso) do simbolismo e interpretação dos números. A questão numérica na Sagrada Escritura é de uma beleza desconcertante. Os primeiros cristãos valorizavam imenso os números e, desse modo, tendo em conta as tradições orais antiquíssimas que veiculavam a ideia de que a criação do mundo teria começado no dia 25 de março, levou-os a colocar nessa data a Anunciação da Virgem Maria que, depois de uma gravidez perfeita, de nove meses certos, deu à luz Aquele que vinha para renovar todas as coisas. Independentemente do dia, o mais importante é sentir (viver), mais do que uma simples realidade histórica, a celebração que encerra uma profundíssima verdade teológica que marca de modo singular a História Sagrada, da intervenção e presença divina na criação!
A Igreja Católica tem alertado para que os textos religiosos, sobretudo aqueles que são antigos, com uma escrita apropriada ao seu tempo, não devem ser entendidos de uma forma literal. Por exemplo, na Epifania, o papel dos Reis Magos que vão com as suas prendas em busca do Salvador, tem alguma mensagem acrescida que deve ser tida em conta?
Como já tive a oportunidade de referir, a Sagrada Escritura não é um livro (conjunto de livros) redigido em forma de crónica e, como em muitas outras passagens, o relato da Epifania está carregado de simbolismo. A sua explicação exegética levar-nos-ia a uma longa reflexão. Imagina-se que existem dissertações de mestrado e teses de doutoramento sobre esse tema.
A troca de presentes no Natal é, seguramente, um fenómeno mais recente, mas será que a origem da tradição estará nesse ato dos Reis Magos?
Presentar o outro está na génese humana. Fazemo-lo também com Deus e com os Santos. É muito bom presentar. Aliás, há maior felicidade em dar do que em receber.
Esta é uma época também de consumismo que, por vezes, chega a ser desenfreado. Como é que olha para o exagero que muitas vezes transforma o simbolismo da dádiva num ato de mera ostentação? Pois, aí é que está o problema. No que damos e no como damos. Dar, por vezes, é um gesto fácil…difícil é darmo-nos. Fazer da nossa vida oblação. Sem medo do sofrimento, da perseguição, do ultraje, da infâmia. Darmo-nos pelas causas justas e nobres. Pelo bem dos outros, da sociedade, da Igreja e do mundo. Essa é a oblação na qual se encontra a verdadeira alegria, porque nos leva a viver, para sempre, no coração do outro, no Coração de Deus.
Outro símbolo do Natal é o presépio. É certa a ideia de que o primeiro terá sido concretizado por Francisco de Assis?
Essa é a ideia que passou para a História. Contudo, terão existido representações do Natal do Senhor anteriores à de São Francisco de Assis. Mas, pela inspiração Divina, foi essa que ficou para a História.
O presépio é bem acolhido pela Igreja que até o incentiva como foi o caso, recentemente, na campanha aquando do confinamento por causa do COVID 19, mas já não é tão entusiasta na referência, por exemplo, a outros símbolos como o Pai Natal – inspirado em S. Nicolau? – ou a Árvore de Natal. Pode explicar?
Claro, até porque, como sabemos, esses outros símbolos surgem como elementos antagónicos, enviesados, em relação aos valores do Evangelho, que levam, precisamente, ao consumismo em detrimento dos sentimentos, dos afetos, do presentar com o coração.
Outra tradição do Natal é a “Missa do Galo” à meia-noite, um nome curioso para uma celebração que anuncia a vinda de Cristo. É uma Eucaristia importante? E já agora vai ocorrer em Vila do Conde?
Sim, na nossa Igreja Matriz, como sucede todos os anos, celebraremos a Vigília do Natal do Senhor, a que vulgarmente se chama Missa do Galo. Sem dúvida, é uma celebração importantíssima, isto porque só as grandes solenidades têm Vigília. É como o grande acontecimento do nascimento de uma criança na nossa família. Perante tal acontecimento ficamos todos em vigília, rezando e acompanhando. Também o fazemos no momento da dor e da morte, ficando em vigília junto dos nossos familiares agonizantes. Assim é a Vigília do Natal do Senhor e assim será a Vigília Pascal, no meio da noite de Sábado Santo.
Pondo de parte alguns rituais da época, todos os anos a Igreja deixa uma mensagem de Natal aos fiéis adequada ao que se vai passando no mundo e em Portugal. Haverá este ano um tema específico?
Sim, o Santo Padre deixa todos os anos uma mensagem natalícia aos católicos e aos homens e mulheres de boa vontade de todo o mundo. Também o faz o Sr. Arcebispo e na nossa paróquia, também eu, todos os anos transmito uma mensagem de Advento / Natal a todos os Vilacondenses, onde deixo sempre alguns apontamentos que expressam o amor que sinto por aqueles que me foram confiados.
O Natal é sobretudo uma festa de família, mas o prior, com as ligações que tem a diversas instituições e o conhecimento da sua comunidade, pode dizer-nos se estão a aumentar os casos de pessoas que vivem em solidão?
Há muita gente a viver na solidão, sim, é verdade. Mas, na nossa comunidade temos uma rede de cuidadores informais que, todas as semanas, se preocupam e ocupam em ir ao encontro dessas pessoas. São os ministros extraordinários da comunhão, é o renovamento carismático, a conferência vicentina e eu próprio que tento, uma vez por mês, visitar os mais idosos, doentes e abandonados. Trata-se de um trabalho solitário, porque a solidão não pode ser tratada de forma ruidosa.
É uma situação que o preocupa?
Muito. Por isso, todos os anos temos aumentado ao número de ministros extraordinários da comunhão, incumbindo-lhes, especialmente, essa função de serem visitadores dos mais frágeis.
Nesse sentido, o projeto do novo Centro Social e Paroquial também podia ajudar. Como está esse processo?
É verdade. O Centro Paroquial foi, desde há muitas décadas, um espaço de ação social disruptiva. Com as obras que arrancarão em breve, ficará dotado de condições otimizadas para continuar a ser um centro no centro da cidade e na vida de todos nós.
O que seria, nesse projeto, uma boa prenda de Natal?
Como para mim há maior felicidade em dar do que em receber, seria para mim uma alegria desmedida poder lançar a obra o quanto antes para a conceder, o mais breve possível, a todos os vilacondenses, pensando particularmente nas quase quinhentas crianças que temos na catequese e nos nossos catequistas, que têm sido verdadeiros heróis ao longo destes anos.
A sua agenda até ao Natal está muito preenchida?
A minha agenda é, quase por completo, a agenda da paróquia e o nosso secretário, o Filipe, por vezes, passa um mau bocado para a conseguir organizar. Ainda bem que é ele a organizá-la.
Mas já tem idealizados a véspera e o dia de Natal?
Sim, a liturgia está preparada. Temos movimentos paroquiais fantásticos. Grande parte do trabalho, mesmo no que à liturgia diz respeito, é, na nossa paróquia, da responsabilidade dos leigos. Fazem um trabalho notável!
Esta é uma época de iguarias gastronómicas. Aprecia, por exemplo, as rabanadas e outros doces, o bacalhau…
Sim, eu gosto de tudo. Não como muito, mas gosto de todo o tipo de iguarias. E em Vila do Conde fazem-se coisas muito boas.
Se pudesse dar um presente a todos os vilacondenses, um objeto, o que é que escolhia?
A imagem do nosso Padroeiro, São João Baptista. É uma imagem que venero e amo verdadeiramente. O exemplo de São João Baptista é de uma força incrível, de uma verticalidade ímpar.
E já agora, qual era a prenda que gostava de receber?
Gostava de receber o dom do sorriso, como expressão de amor, no rosto de todos os Vilacondenses.
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