Opinião de Eliana Miranda de Sousa

 

Na primeira metade do século XVI, o início do mês de Novembro ficou marcado por dois grandes momentos históricos, no que ao património edificado da cidade concerne.

Em 1502, após a passagem do rei D. Manuel I por Vila do Conde, fica registado o planeamento e o apoio financeiro da construção da nova igreja matriz, que irá substituir a velha igreja pré-românica no “monte do mosteiro”, que já não estava apta para a prática do culto e acolher os paroquianos. Este rei, segundo o que a tradição vem transmitindo, terá sido abordado sobre esta necessidade e amparou-a e patrocinou-a. É assim, desta forma, que, por volta de 1514/15, terá ficado concluída a nova igreja (depois de ter passado pelas mãos de vários mestres pedreiros), um edifício relevante a nível nacional no estudo da arquitectura de estilo manuelino: é a partir daqui que o inovador João de Castilho, o seu último arquitecto e mestre das artes decorativas tão características deste período, parte para obras ainda mais grandiosas, como o Mosteiro dos Jerónimos.

Quatro décadas depois, também no início deste mês, é aprovada a obra de pedraria dos novos Paços do Concelho, feita por Gonçalo Afonso, mestre pedreiro local. Ou seja, em 1543, simbolicamente assinalado na cartela do lintel da porta que dá acesso ao piso superior deste edifício, conclui-se outro espaço há muito tempo necessitado de substituição, como certificam os vários documentos existentes. Desta feita, foi uma obra autorizada pelo filho de D. Manuel I, o rei D. João III, após muita insistência por parte do poder local, pedindo-se autorização para se usar o dinheiro do imposto criado para ajudar na construção da igreja matriz, a que o rei resistiu inicialmente por ainda não estar feita a torre da igreja.

Concluídos os novos Paços do Concelho (e o pelourinho), é finalmente executada a nova praça, que D. Manuel I havia ordenado que se fizesse aquando da nova igreja, criando-se um novo espaço central na vila, à maneira renascentista (com todos os edifícios mais importantes à sua volta), ponto de encontro das mais antigas ruas da zona norte e da zona ribeirinha.

 

Publicado no jornal a 1 de novembro. Outras opiniões: R. Cunha Reis, Miguel Torres e Carlos Real e João Paulo Meneses. Na atual edição em papel: Abel Maia, Gualter Sarmento, João Paulo Meneses, Fátima Augusto e Adelina Piloto.

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