Opinião de Miguel Torres

 

A gastronomia britânica já foi, há alguns séculos, uma das mais conceituadas do mundo. Hoje em dia, está longe desse patamar e abaixo, por exemplo, da portuguesa.

Até mesmo os famosos Fish and Chips, talvez o prato britânico mais conhecido internacionalmente, tiveram origem na emigração de Judeus sefarditas provenientes de Portugal. Acabam por ser uma forma de apropriação cultural dos nossos filetes de bacalhau que já dura desde o século XVI.

E mesmo nos últimos cem anos, se Portugal inventou a Francesinha, na Grã-Bretanha inventou-se o Chicken Tikka Masala, um prato que está praticamente em todos os restaurantes… indianos. O que muitos não sabem, é que ao nível das sobremesas, o Reino Unido inovou bastante e existe um prato tradicional que hoje está em quase todas as mesas portuguesas. Mas não se assustem. Não estou a dizer que o senhor Abade de Priscos vinha de um mosteiro em Lancashire, nem que a Baba de Camelo é baseada em fluidos corporais de Boris Johnson.

Estou a falar sim, da Viennetta. Esse doce que junta natas, extrato de baunilha e chocolate estaladiço, numa das combinações com mais sucesso a nível mundial, foi inventada em 1982 mas passados dois ou três anos já fazia parte de todas as sobremesas de casamentos em Portugal, tendo mantido esse estatuto por mais de uma década.

Sempre que tenho de portugueses, faço questão de ir ao Tesco comprar uma Viennetta para que ao jantar possa dizer: agora vão experimentar uma sobremesa tipicamente britânica. E vejo os olhos reluzir quando essas pessoas têm a oportunidade de desfrutar dessa iguaria no país que a viu nascer. Se a petinga sabe melhor nas Caxinas, se o Leitão sabe melhor na Bairrada, a Viennetta sabe melhor em Inglaterra.

 

 

Publicado no jornal a 1 de novembro. Outras opiniões: R. Cunha Reis, Eliana Miranda de Sousa e Carlos Real e João Paulo Meneses. Na atual edição em papel: Abel Maia, Gualter Sarmento, João Paulo Meneses, Fátima Augusto e Adelina Piloto.

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