
Opinião de Eliana Miranda de Sousa
Era para ser segredo, mas vai deixar de o ser. O meu companheiro de projecto que me perdoe, mas recentes acontecimentos impelem-me na divulgação de um trabalho que já há muito desejava fazer e que, em conversa informal, se tornou numa ideia a dois.
Trata-se da inventariação das fachadas azulejares das casas mais antigas de Vila do Conde, com um duplo objectivo: tentar salvarguardar o que ainda resiste (apesar de haver legislação para tal) e ajudar na investigação histórica – com o vasto conhecimento existente sobre a produção de azulejos em Portugal, estes pequenos elementos (à falta de outros), muitas vezes, são preciosos para a datação de edifícios. Poderia acrescentar um terceiro objectivo, o da divulgação, mas para nós, historiadores, esta tem sempre como última esperança o evitamento da destruição do património, ou seja, a salvaguarda.
Na primeira metade do século XX, muitos foram os edifícios religiosos que se viram esventrados dos seus azulejos, para que voltassem a ser como eram (e mesmo assim, muitos erros foram cometidos), como se a evolução das artes decorativas fosse menos importante que a construção original. Vá lá que se salvou a talha barroca!
Assim, restaram-nos os azulejos da arquitetura civil.
Há dias, numa das zonas mais antigas de Vila do Conde, uma casa deste inventário foi completamente demolida, caindo também por terra centenas de azulejos do século XIX. O Regime Jurídico da Urbanização e Edificação, na sua última versão de 2019, é claro quanto à proibição da destruição de fachadas com azulejos. Até no interior das casas não podem ser retirados sem consentimento prévio das entidades competentes. E deve-se proceder à remoção dos azulejos antes da demolição da fachada ou do edifício (caso não seja possível, por motivos de segurança, manter), para uma de duas coisas: recolocação do maior número possível de exemplares originais (podendo a fachada ser completada com réplicas), ou, como tem vindo a fazer a Câmara do Porto, recolha para o seu Banco de Materiais. Espero não voltar a ver um cenário destes na cidade, pois se isto se tornar prática corrente, de nada serve envaidecer-nos da localidade com tantos séculos de História em cima. Ao desalojarmos os azulejos, estamos a apagar parte dessa História.
Edição de 4 de outubro
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