Opinião de Carlos Real

Certamente que já ouviram falar das greves que estão a acontecer nas produções de Hollywood. Desde Maio que as produções de filmes e séries estão paradas em virtude da luta dos sindicatos pelos direitos dos seus trabalhadores. Hollywood não é só dinheiro e glamour por isso, decidi explicar o que está a acontecer no maior mercado de entretenimento do mundo

Começou no dia 1 de Maio a greve dos argumentistas que despontou esta longa batalha que ainda se mantém. Resumidamente, os argumentistas têm como trabalho escrever os filmes e as séries que depois são gravadas e chegam aos ecrãs. São eles que pensam a história e a desenvolvem. No entanto, o trabalho de argumentista é complicado. Com o aparecimento dos canais streamings, tudo passou a ser muito mais rápido. As séries que antes tinham 22 episódios feitos ao longo de 1 ano, passaram a ter 10, feitos em menos tempo. Isto leva a que os argumentistas que trabalhavam durante esse ano passem agora a trabalhar durante 2 a 3 meses e continuem a ganhar muito pouco. Muitos destes argumentistas tiveram de arranjar outros trabalhos para conseguir sobreviver. Ao mesmo tempo tem aparecido o fenómeno da inteligência artificia (IA). Sites e ferramentas como o chatgpt vieram causar o pânico porque podem substituir o trabalho humano. Para além disso, grande parte dessas ferramentas são grátis e permitem aos estúdios poupar dinheiro e claro, é algo que eles não vão desperdiçar. Por estas e por outras variadas razões, os argumentistas querem acordos melhores e a garantia de que a IA não os vão substituir.

Se isto estava mau, ficou pior quando os atores se juntaram à greve. Os atores alegam precisamente os mesmos pontos dos argumentistas. A questão dos salários é sempre algo que é revisto e lá está, neste monopólio dos estúdios, os canais streaming como a Netflix, a Disney, ou a HBO vieram mudar o paradigma. Uma nota importante de ressalvar é que quando falámos de atores não estamos a falar de nomes como o Tom Cruise ou Brad Pitt que são um núcleo restrito a que chamamos de estrelas. Falámos dos atores comuns que lutam todos os dias em audições e que passam meses, até anos, sem conseguir ganhar um papel. Também eles são obrigados a trabalhar noutros empregos para conseguirem manter-se.

A isto junta-se uma questão muito importante. Os direitos de imagem. Antigamente, por cada vez que um filme ou um episódio de uma série passava na televisão ou alguém comprava um DVD, os atores, os argumentistas e quem fez parte do projeto recebiam uma pequena percentagem por ser a imagem e o trabalho deles que estava a ser comercializado. Ora bem, com os canais de streaming isso deixou de acontecer. Um filme ou uma série estão disponíveis na plataforma durante um tempo indeterminado e não é propriamente claro o número de vezes que são consumidos. Dado isto, os trabalhadores nunca chegam a ser pagos na totalidade pelos seus direitos. E mais uma vez a isto junta-se a IA. Os estúdios alegam ter o direito de usar a imagem de um ator numa produção sem ter de pagar ao mesmo pelo seu uso. Ou seja, qualquer ator pode ver a sua imagem numa produção da qual não foi informado nem pago.

Resumidamente, é isto que está a contecer em Hollywood. Os estúdios estão a bater o pé e esperam que com o passar do tempo e com a necessidade os atores e os argumentistas voltem atrás e os lesados estão afincadamente dispostos a lutar para mudar o paradigma. É importante ressalvar que durante a greve é estritamente proibido trabalhar, falar ou promover qualquer produção o que significa que tudo está parado. Ficaria aqui a falar durante mais tempo mas o importante é explicar de forma simples o que está a acontecer no mundo do entretenimento e mostrar que claro, nem tudo é dourado mesmo no mundo das estrelas.

 

Edição de 6 de setembro

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