Opinião de Miguel Torres

 

Desde que emigrei, há onze anos, deixei de ver televisão e rádio portuguesa regularmente. Apenas quando regresso a Portugal estou exposto ao que se passa nestes meios de comunicação social.

Por essa razão, sempre que regresso noto algumas diferenças no que vejo e ouço, Por exemplo, quando saí de Portugal a música que passava era maioritariamente anglo-saxónica, talvez como consequência da mais antiga aliança do mundo. Foi, por isso, surpreendente para mim, chegar a Inglaterra e a rádio não estar impregnada de música portuguesa. A Heart não passava o Maravilhoso Coração de Marco Paulo, a Absolute passava os Police em vez dos GNR e a Star não dourava o caminho do Rui Veloso. Uma deceção, apenas a ClassicFM passava, por vezes, Maria João radicalmente.

Nestas últimas férias percebi que a rádio em Portugal mudou completamente e que os artistas anglo-saxónicos já não dominam o panorama. Uma das razões para isso é a legislação que obriga as rádios a apostarem na produção nacional.

Se por um lado acho bem que os artistas portugueses sejam recompensados, por outro lado fez com que a fasquia de qualidade tenha descido um bom bocado. Registou-se um aumento significativo do número de baladas cheias de vocalizes em que intérpretes tentam convencer-nos que as suas vozes são muito boas e capazes de nos fazer esquecer quão más são as letras. É uma boa altura para olhar para as estatísticas de sinistralidade rodoviária para perceber se o número de acidentes por adormecimento ao volante não aumentaram demasiado.

Juntamente com os artistas portugueses surgiu em força o reggaeton. Em contraste, o reggaeton enlata péssimas vozes em autotune e transforma-as em algo ainda pior. Se eu pensava que em Cambridge toda a gente ouvia Mariza quando vim para cá, agora sou capaz de apostar que em Barranquilla todos trauteiam Olarilólé Olarilólei.

 

Edição de 6 de setembro

 

 

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